terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Parte um: A janela fria.

 Meu pai sempre dizia que a melhor maneira para aprender uma profissão é  passar cada segundo observando alguém à exercendo.

 “Para conseguir chegar ao topo, você precisa subir um degrau por vez, começando lá de baixo”, ele me disse. “Seja a pessoa sem a qual o seu chefe não possa viver. Seja seu braço direito. Aprenda tudo sobre seu mundo, e sua ascensão começará assim que for contratada.”

 Eu me tornei indispensável. E definitivamente me tornei o braço direito. Acontece que, neste caso, o braço direito frequentemente queria estrangular o pescoço daquela maldita.
 
 Minha chefe, a Srta. Lauren Jauregui. Uma cretina. Uma doce e linda cretina.

 Meu estômago se embrulha só de pensar nela: olhos verdes, cabelos grandes e negros, branca e completamente cruel. Ela era a babaca mais egocêntrica e convencida que eu já tinha conhecido. Eu ouvia as outras pessoas do escritório fofocando sobre suas escapadinhas e ficava pensando se um rosto bonito era tudo o que ela precisava. Mas meu pai também dizia:
 “Você também vai perceber cedo na vida que a beleza é apenas superficial, mas a feiura se estende até os ossos”. Eu tive minha quota de homens e mulheres desagradáveis nos últimos anos, namorei alguns no colegial e na faculdade. Mas essa foi a campeã.

-Olá, srta. Cabello! – A srta. Jauregui estava de pé ao lado da porta da minha sala, que servia de recepção para o escritório dela. Sua voz estava melosa, mas era uma doçura toda errada...como um mel que foi congelado e que agora estava começando a rachar.

 Depois de derramar água no meu celular, deixar cair meu par de brincos na lixeira, receber uma pancada na traseira do meu velho carro na via expressa e ter de esperar a polícia chegar para ouvir tudo aquilo que eu já sabia – que a culpa foi do outro motorista – , a última coisa que eu precisava naquela manhã era aguentar o mau humor da srta. Jauregui. Pena que ela não tem nenhum outro tipo de humor.

 Eu respondi com o “Bom dia, srta. Jauregui” de sempre, esperando que ela respondesse com seu habitual aceno de cabeça. Mas, quando eu tentei passar, ela murmurou:

- Bom dia? Será que você não quer dizer “boa tarde”, senhorita Cabello? Que horas são nesse seu mundinho?
 Eu parei e encarei de volta seu olhar gelado. Ela era do meu tamanho, e mesmo assim quando estava perto dela, me sentia extremamente pequena. Fazia seis anos que eu trabalhava para a Jauregui Media Group, a JMG. Mas, desde o retorno da srta. Jauregui para a empresa de sua família, há nove meses, eu começara a usar salto alto para fazer parar, inutilmente, aquela sensação horrível de diminuição que ela me causava. E ela claramente se divertia com isso, deixando escapar um brilho de satisfação  naqueles olhos verdes.

 - Tive uma manhã meio desastrosa. Não vai acontecer de novo – eu disse, aliviada por minha voz sair sem tremer. Nunca me atrasei antes, nem uma vez, mas é claro que ela tinha que fazer uma cena na primeira vez que aconteceu. Passei por ela, guardei minha bolsa e o casaco no armário e liguei o computador. Tentei fingir que ela não estava ali de pé na frente da porta, assistindo a cada movimento meu.

- uma “manhã desastrosa” é uma descrição muito apropriada para o que eu tive de passar com a sua ausência. Tive de pedir desculpas a Alex Schaffer por ele não ter recebido os contratos assinados quando prometido: às nove da manhã, no horário da costa leste. Tive de ligar para Madeline Beaumont pessoalmente par a confirmar que iríamos sim prosseguir com o trabalho como descrito. Em outras palavras, fiz o seu trabalho e o meu nesta manhã. Tenho certeza de que, mesmo com uma “manhã desastrosa” você conseguiria chegar às oito. Tem gente, srta. Cabello, que começa a trabalhar antes mesmo do café da manhã.

 Levantei a cabeça para encará-la enquanto ela me julgava com os braços cruzados abaixo daqueles seios grandiosos – e tudo por eu estar apenas uma hora atrasada. Então desviei os olhos para não ficar encarando a maneira como o corte do seu vestido vermelho vinho realçava bem suas curvas. No primeiro mês em que trabalhamos juntas, houve uma convenção e fiz a besteira de visitar a academia do hotel – dei de cara com ela só de short e top, toda suada e ofegante ao lado de uma esteira. Ela tinha o rosto que qualquer modelo gostaria de ter e o cabelo mais incrível que eu já vi em uma mulher. Cabelo de quem acabou de transar. Era assim que os garotos e garotas do andar de baixo chamavam aquele cabelo, e de acordo com esse pessoal, o título era bem merecido. A imagem dela passando a toalha no pescoço ficou pra sempre marcada em minha memória. E a situação não melhorou nada depois de descobrir que ela assumidamente, assim como eu, apreciava a anatomia feminina.

 Mas, é claro, ela teve de estragar o bom momento abrindo a boca: “É bom ver que você finalmente está tomando interesse em cuidar do seu corpo, srta. Cabello.”.

Filha da puta.

 - Desculpe, sra. Jauregui – eu disse, deixando escapar um pouco de veneno latino na voz, como minha boa descendência me permite. – Eu entendo o sacrifício que foi para a senhora usar um fax e atender ao telefone. Como já disse, não vai acontecer de novo.

 - Exatamente, não vai mesmo – ela respondeu, com o sorriso pretensioso e firme no lugar. Se pelo menos ficasse de boca fechada, ela poderia ser perfeita. Um pedaço de fita adesiva resolveria o problema. Eu tinha um rolo no meu armário que às vezes eu pegava e acariciava, pensando que um dia eu poderia fazer bom uso dele.

 - E, só para que você não esqueça desse incidente, eu gostaria de ver a situação completa dos projetos da Schaffer, da Colton e da Beaumont na minha mesa até as cinco. E então você vai compensar a hora perdida desta manhã simulando uma apresentação da conta da Papadakis na sala de conferência às seis. Afinal, se você vai cuidar dessa conta, terá de provar para mim que sabe o que está fazendo.

 Meus olhos se arregalaram enquanto eu assistia ela ir embora e bater a porta do escritório. Ela sabia muito bem que eu estava apenas começando esse projeto, que também seria minha tese no MBA. Ainda teria meses para terminar os slides depois que os contratos fossem assinados...o que ainda não havia acontecido. Ainda não tinham nem sido rascunhados. Agora, com tudo o mais jogado no meu colo, ela queria que eu arrumasse uma apresentação em...olhei para o relógio. Ótimo, sete horas e meia, se eu pulasse o almoço. Então abri o arquivo da Papadakis e comecei trabalhar.

 Enquanto as pessoas começavam a sair para o almoço, eu fiquei colada na minha mesa com meu café e um pacote de salgadinho que peguei da máquina. Normalmente, eu trazia comida de casa ou saía junto com os outros estagiário para almoçar, mas aquele dia o tempo não era meu amigo. Ouvi a porta abrir e olhei com um sorriso no rosto enquanto Dinah Jane entrava. Dinah e eu fazíamos parte do mesmo programa de estágio para MBA da Jauregui Media Group, mas ela trabalhava no setor financeiro.

 - Pronta para almoçar, coisinha? – ela perguntou.

 - Vou ter de pular o almoço, hoje está sendo um dia infernal – eu disse, como quem pede desculpas, e o sorriso dela mostrou um pouco de malícia.

 - Dia infernal ou chefe infernal? – ela sentou na beira da minha mesa. – Ouvi dizer que ela estava meio brava hoje de manhã.

 Respondi com um olhar de cumplicidade. Dinah não trabalhava para ela, mas sabia tudo sobre Lauren Jauregui, desde a cor dos olhos até à sexualidade bastante tentadora, afinal, com seu conhecido pavio curto e fama de pegadora, ela era uma lenda viva no escritório.

  - Mesmo se existissem duas de mim, não seria possível terminar tudo isso a tempo.

 - Não quer mesmo que eu traga alguma coisa? – seus olhos se moveram em direção a sala dela. – tipo, um assassino de aluguel? Ou um pouco de água benta?

 Tive de rir.

 - Não, tudo bem.
 
Dinah sorriu e saiu. Eu tinha acabado de terminar meu café quando me inclinei e percebi que minha meia tinha rasgado.

  - E ainda por cima – comecei a falar quando ouvi Dinah voltando – , consegui rasgar a meia. Na verdade, se tiver chocolate no restaurante, você pode me trazer uns vinte quilos para eu poder aliviar minha tensão?

 Olhei para cima e vi que não era Dinah parada ali na minha frente. Meu rosto ficou vermelho e abaixei a saia de volta no lugar.

  - Desculpa, sr. Jauregui, eu...

  - srta. Cabello, já que você e as outras secretárias têm tanto tempo para discutir suas lingeries problemáticas, além de preparar a apresentação da Papadakis, preciso que você também vá até a sala do Willis e me traga a análise de mercado e segmentação da Beaumont – ela ajeitou os cabelos olhando para seu reflexo na minha janela. – Você acha que consegue fazer isso?

  Será que eu estava ouvindo direito? Ela tinha acabado de me chamar de “secretária”? É verdade que parte do meu estágio era fazer um pouco do trabalho básico de um auxiliar, mas ela sabia muito bem que eu tinha trabalhado para essa empresa por vários anos antes de conseguir minha bolsa da JT Miller na Northwestern University. Agora, faltavam apenas quatro meses para eu conseguir meu diploma em administração. Quatro meses para eu pegar o diploma e dar o fora daqui, pensei. Olhei para cima para encontrar seus olhos.

 - Pode deixar, vou pedir para a San trazer...

 - Isso não foi uma sugestão – ela me interrompeu. – Quero que você vá pegar os documentos – ela olhou para mim por um instante com o queixo apertado antes de se virar e voltar para sua sala, batendo a porta atrás de si. Qual é a merda do problema dela? Era realmente necessário bater a porta como uma adolescente temperamental? Peguei meu casaco e comecei andar até o escritório adjunto, que ficava em outro prédio. Quando voltei, bati à porta dela, mas ninguém respondeu. Tentei girar a maçaneta. Estava trancada. Ela provavelmente estava dando alguma rapidinha com alguma princesa ou algum babaca da diretoria enquanto eu corria por Chicaco que nem uma louca. Enfiei o envelope pardo na abertura do correio, esperando que os papéis se espalhassem por toda a parte e ela tivesse de se abaixar para arrumar tudo. Seria merecido. Até gostei dessa imagem dela de quatro no chão, juntando os documentos. Por outro lado, conhecendo a pessoa, ela provavelmente iria me chamar para limpar a bagunça enquanto ela se divertia assistindo.

  Quatro horas mais tarde, eu tinha terminado a atualização das contas, meus slides estavam praticamente em ordem e eu estava quase rindo histericamente pensando no quão terrível o dia tinha sido. Mas tive de passar um tempo planejando o assassinato do garoto do xerox. Um trabalho simples, foi tudo que pedi. Faça umas cópias, encaderne umas folhas. Era para ter sido uma coisa fácil. Entrar e sair. Mas não. Levou duas horas. E agora eu estava atrasada, fodidamente atrasada.

  Corri através dos corredores escuros do prédio, que já estava vazio, com o material da apresentação  quase caindo debaixo do braço, e olhei para o relógio. Seis e vinte. A Sr. Jauregui ia me comer viva. Eu estava vinte minutos atrasada e, como aprendera naquela manhã, ela odiava atrasos. “Atraso” era uma palavra que não existia no Dicionário para estúpidas de Lauren Jauregui. Também não havia: coração, bondade, compaixão, obrigada ou pausa para o almoço.

  Então lá estava eu, apressada pelos corredores vazios, correndo com meus saltos gigantescos para encontrar a demonia.

  Respire, Camila. Ela pode sentir o cheiro do medo.

  Quando me aproximei da sala de conferências, tentei acalmar minha respiração e diminui o passo até voltar a andar. Um rastro de luz brilhava debaixo da porta. Ela definitivamente estava ali. Com cuidado, tentei arrumar o cabelo e as roupas enquanto alinhava o maço de documentos nos meus braços. Respirando funto, bati na porta.

  - Entre.

  Entrei n o espaço bem iluminado. A sala de conferência era enorme. Ficava no 18º andar e uma das paredes era coberta por janelas que iam do chão ao teto, oferecendo uma visão espetacular de Chicago. O anoitecer escurecia o céu lá fora, e arranha-céus pontuavam o horizonte com suas janelas iluminadas. No centro da sala ficava uma grande e pesada mesa de madeira e, na ponta mais distante, encarando na minha direção, estava a Sra. Jauregui. Estava sentada lá, com os lindos cabelos negros presos em o coque mal feito, os óculos de grau deixados de lado na mesa perto de onde suas unhas bem pintadas batucavam sem parar, fazendo o som ecoar pela sala silenciosa.
 - Eu peço desculpas, sra. Jauregui – eu disse, minha voz ainda ondulando por causa da respiração entrecortada. – a impressão levou... – parei. Desculpas não iriam ajudar nessa situação. Além disso, eu não deixaria ela me culpar por algo que estava fora do meu controle. Ela podia ir para o inferno. Com minha coragem recém-descoberta, ergui o queixo e caminhei até onde ela estava.

 - Posso começar?

 Ela não respondeu, apenas ficou encarando minha postura, que tentava mostrar coragem. O que seria bem fácil se ela não fosse tão linda. Em vez de dizer alguma coisa, ela fez um gesto em direção aos papéis, pedindo que eu continuasse.

 Limpei a garganta e comecei a apresentação. Enquanto eu passava pelos diferentes aspectos da proposta, ela se manteve em silêncio, olhando fixamente para sua cópia do texto. Por que estava tão calma? Eu sabia lidar com seu mau humor, mas aquele silêncio ensurdecedor? Aquilo estava me deixando nervosa. Eu estava inclinada sobre a mesa, explicando um grupo de gráficos, quando aconteceu.

 - O cronograma deles para o primeiro resultado é um pouco ambici... – parei no meio da frase, com meu ar preso na garganta. A mão dela pressionou gentilmente a parte de baixo das minhas costas e então começou a descer até parar na curva da minha bunda. Nos nove meses em que trabalhávamos juntas, ela nunca havia me tocado intencionalmente.

 E naquele momento fora DEFINIVAMENTE intencional.

 O calor de sua mão queimou através da minha saia e chegou até a pele, cada músculo do meu corpo ficou tenso, e senti como se minhas entranhas estivessem virando água. Que diabos ela estava fazendo?! Meu cérebro gritou para eu tirar aquela mão dali e dizer para ela nunca mais me tocar de novo. Mas meu corpo tinha outras ideias. Meus mamilos endureceram, e apertei o queixo em resposta. Mamilos traidores. Enquanto meu coração batia forte no peito, pelo menos meio minuto se passou, e nenhuma de nós disse nada quando a mão dela se moveu para minha coxa e começou a acariciar. Nossas respirações e o barulho abafado da cidade lá em baixo eram os únicos sons que pairavam no ar da sala de conferência.

 - Vire-se, srta. Cabello – sua voz rouca quebrou o silêncio e eu ajeitei minhas costas, com os olhos grudados à frente. Vagarosamente, eu me virei, enquanto ela passava a mão pelo meu corpo. Eu podia sentir a maneira como ela esticou a mão, tocando com a ponta dos dedos toda a extensão das minhas costas até pressionar seu polegar contra a pele macia dos meus quadris. Abaixei a cabeça para encontrar seus olhos, que me observava de volta atentamente.

 Podia ver seus seios apertados dentro do vestido subindo e descendo, cada respiração mais profunda do que a última. Um músculo tremeu em seu queixo bem desenhado quando seu polegar começou a se mover, acariciando lentamente de um lado para outro, os olhos ainda grudados nos meus. Ela estava esperando que eu a interrompesse. Tive muito tempo para afastá-la de mim ou simplesmente me virar e ir embora. Mas havia muitas sensações dentro de mim.  Estava em uma espécie de transe a observando com a boca entreaberta, esperando ansiosamente sua próxima ação.  Nunca tinha me sentido assim, e eu nunca imaginara que um dia me sentiria dessa maneira em relação a ela. Eu queria dar um tapa forte no rosto dela, e depois puxá-la pelos cabelos e lamber seu pescoço pálido.

 - No que está pensando? – ela sussurrou, com os olhos ao mesmo tempo zombando a mostrando ansiedade.

 - Ainda estou tentando descobrir.

 Com aqueles olhos vibrantes ainda presos aos meus, ela começou a deslizar a mão mais para baixo. Seus dedos percorreram minha coxa até a barra da saia. Então começou a subir a ponta do dedo, tracejando a alça da minha cinta-liga, esbarrando na renda que sustentava a meia. Um longo dedo deslizou por baixo do tecido fino e o puxou levemente para baixo. Eu soltei um suspiro entrecortado, de repente me sentindo como se estivesse derretendo por dentro. Como eu poderia deixar meu corpo reagir daquela maneira? Ainda queria lhe dar um tapa, mas agora, mais do que isso, eu queria que ela continuasse. Um desejo angustiado estava se concentrando entre as minhas pernas. Ela alcançou o topo da minha calcinha e deslizou os dedos debaixo do tecido. Senti sua carícia contra minha pele e o resvalar em meu clitóris antes de ela enfiar o dedo lá dentro, e então mordi os lábios, tentando, sem sucesso, abafar meu gemido. Quando olhei para baixo, gotas de suor estavam se formando em suas sobrancelhas.

 - Merda – ela grunhiu silenciosamente. – você está molhada – seus olhos se fecharam e ela parecia lutar a mesma batalha interna que eu enfrentava. Olhei para suas pernas e pude ver o quanto ela as apertava uma contra outra na tentativa de acabar com o latejar que se alojava em seu centro. Sem abrir os olhos, ela tirou o dedo e agarrou a renda fina da minha calcinha. Ela estava tremendo quando olhou pra mim com uma expressão furiosa. Com um movimento rápido, rasgou a calcinha, e o som do tecido sendo partido ecoou pelo silêncio da sala vazia.

 Ela puxou minhas coxas com força, colocando meu corpo em cima da mesa fria e abrindo minhas pernas na sua frente. Soltei um gemido involuntário quando os dedos dela voltaram, escorregando por entre minhas pernas e me penetrando novamente. Eu desprezava aquela mulher com todas as minhas forças, mas meu corpo me traía – eu desejava que ela continuasse. Eu odiava admitir, mas ela era muito boa naquilo. Seu toque não era aquela coisa gentil e amorosa a que eu estava acostumada, não vindos de uma mulher. Acontece que a sr. Jauregui era uma mulher habituada a conseguir o que queria, e ali naquele momento, o que ela queria era eu. Minha cabeça pendeu para o lado quando me apoiei nos cotovelos, sentindo um orgasmo iminente se aproximando a todo vapor.

 Para meu completo horror, soltei um sussurro implorando:

 - Oh, por favor.

 Ela parou de mexer, puxou os dedos de volta a manteve o punho fechado na frente do rosto. Eu me sentei, agarrando seu pescoço e puxando sua boca com foça sobre a minha. Seus lábios vermelhos eram tão saborosos quanto pareciam, firmes e doces. Eu nunca tinha sido beijada por alguém que claramente conhecia cada ângulo e movimento provocante capaz de me deixar quase louca.

 Mordi seu lábio inferior enquanto minhas mãos rapidamente procuraram o zíper lateral de minha saia, o abrindo por inteiro e me deixando completamente exposta.

 - É melhor você estar pronta para terminar o que começou.

  Ela soltou um grunhido raivoso do fundo da garganta e tomou minha blusa com as mãos, rasgando-a até abrir, fazendo os botões prateados se esparramarem pela mesa.

 Então, deslizou as mãos pelas minhas costelas e sobre meus seios, apertando com os polegares em meus mamilos endurecidos, com seu olhar sombrio, agora em um tom escuro, fixado na minha expressão o tempo todo, como se estivesse pedindo aprovação para os próximos passos. Suas mãos suaves agora adotaram uma força que quase me machucavam, mas, em vez de me afastar ou reclamar, eu pressionei o corpo contra suas palmas, querendo ainda mais, e mais forte.

 Ela passou a apertar ainda mais com os dedos.  Passou pela minha mente que eu poderia ficar toda machucada e, por um instante de insensatez, eu desejei que ficasse. Eu queria uma lembrança dessa sensação, de estar completamente entregue aos toques de Lauren.

 Ela se inclinou o bastante para morder meu ombro e então sussurrou:

 - Você é uma putinha que gosta de provocar, não é?


  Sem conseguir me aproximar mais, eu me apressei com o zíper de sua saia, a arrancando fora e jogando no chão. Então deslizei meus dedos por entre o tecido preto de sua calcinha, sentindo seu clitóris pulsar em minha mão.
 - Oh, Cabello.

 A maneira como ela sussurrou meu sobrenome naquele momento enviou um forte onde de luxúria para dentro de mim, me sentia embriagada de tesão.  Ela forçou minhas costas contra a mesa e me empurrou para trás. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela agarrou um de meus seios com uma das mãos e com a outra penetrou forte dentro de mim. Eu nem pude ficar horrorizada pelo gemido alto que soltei – aquilo era melhor do que qualquer coisa.

 - O que foi? – ela sussurrou entre os dentes cerrados enquanto as estocadas aumentavam colocando seus dedos fundo e mais fundo. – Nunca foi fodida dessa maneira antes, não é? Você não ficaria provocando tanto se estivesse sendo fodida direito.

 Quem ela pensava que era? E por que diabos o fato de ela estar certa me excitava tanto? Eu nunca tinha transado em nenhum outro lugar além da cama, e nunca tinha me sentido daquela maneira.

 - Já tive melhores – provoquei.

 Ela riu, uma risada quieta e debochada.

 - Olhe para mim.

 - Não.

 Ela tirou seus dedos bem quando eu estava prestes a gozar. Por um instante, achei que iria me deixar ali daquele jeito, mas então ela segurou meus braços e me puxou para fora da mesa, pressionando lábios e língua contra minha boca.

 - Olhe para mim – repetiu.  E, finalmente, como ela já não estava mais dentro de mim, eu consegui olhar. A sra. Jauregui piscou uma vez, vagarosamente, com os longos cílios fechando e abrindo, e então disse calmamente: - Peça para eu te fazer gozar.

 Seu tom de voz não parecia certo. Parecia quase uma pergunta. Mas suas palavras eram iguais a ela: todas distorcidas. Eu queria sim que ela me fizesse gozar. Mais do que qualquer coisa. Mas ela estava sonhando se achava que eu lhe pediria.

- Você é uma filha da puta, sra. Jauregui.

- O sorriso dela mostrou que, seja lá o que ela queria de mim, conseguiu. Eu quis arrancar seus dedos fora, mas, se fizesse isso, não teria mais daquilo que eu realmente desejava.

- Peça por favor, srta.Cabello.

- Por favor, vá se foder.

 A próxima coisa que senti foi o frio da janela contra meu peito, e gemi por causa do contraste de temperatura entre o vidro e a pele. Eu estava ardendo, cada parte de mim queria sentir o toque rude e feminino dela.

- Pelo menos você é consistente – ela disse em meu ouvido antes de morder meu ombro. Então, chutou meus pés.

 - Abra as pernas.

 Separei as pernas e, sem hesitação, ela puxou meus quadris para trás antes de enfiar seus dedos dentro de mim novamente. Rude e forte.

- Você gosta do frio?

- Sim.

- Sua safada. Você gosta de se exibir não é? – ela murmurou, tomando minha orelha com os dentes – você adora saber que toda Chicago pode olhar para cima e assistir você sendo fodida, e você está adorando cada minuto disso com seus peitinhos pressionados contra o vidro.

- Pare de falar, você está estragando o clima – eu respondi, embora ela não estivesse. Nem um pouco. Sua voz rouca estava me levando à loucura.

 Ela apenas riu no meu ouvido, provavelmente percebendo como eu me arrepiava com suas palavras.

 - Você quer que eles assistam você gozar?

 Eu gemi em resposta, incapaz de formar palavras com cada estocada e com seus seios roçando contra minhas costas me pressionando cada vez mais contra a janela.

- Diga, você quer gozar, srta. Cabello? Responda ou vou parar e fazer você me chupar – ela disse, indo cada vez mais fundo.

A parte de mim que a odiava estaca se dissolvendo como açúcar na língua, e a parte que o desejava estava crescendo fogosa e exigente.

- Apenas diga – ela se inclinou para frente,  chupou minha orelha enquanto a sua mão livre segurou com força meus cabelos e depois mordeu com força. – e eu prometo que vou te fazer gozar.

- Por favor – eu disse, fechando os olhos para apagar todo o resto e apenas senti-la. – Por favor. Sim, eu quero. Ela soltou meus cabelos, desceu a mão sobre meu ventre e moveu as pontas dos dedos por cima do meu clitóris, exercendo a pressão perfeita, no ritmo perfeito. Eu podia sentir seu sorriso pressionado contra minha nuca e, quando ela abriu a boca e mordeu minha pele, eu gozei. Um calor se espalhou por minhas costas, ao redor dos quadris e entre as pernas, me jogando de volta contra ela. Minhas mãos bateram contra o vidro e meu corpo inteiro tremeu com o orgasmo que se espalhou em mim, me deixando sem ar. Quando finalmente acabou, ela retirou seus dedos de dentro e me virou, mergulhando a cabeça para chupar meu pescoço, meu queixo, meus lábios, enquanto minhas unhas trabalhava em suas costas a marcando, não seria a única a sair marcada nessa pequena aventura.

- Diga obrigada – ela sussurrou.

 Afundei minhas mãos em seus cabelos, que a muito já havia desfeito o coque, e puxei com força, esperando tirar alguma reação dela, querendo saber se ainda estava consciente ou se tinha perdido a cabeça. O que é que estamos fazendo?

 Ela grunhiu, inclinando-se em minhas mãos e beijando meu pescoço de cima a baixo enquanto retirava a sua calcinha.

- Agora é a sua vez de me fazer sentir bem.

 Soltei uma mão, alcancei seu centro quente e pulsante e comecei a mexer. Ela estava molhada e pronta para mim, perfeita. Eu queria dizer isso, mas nem em mil anos eu a deixaria saber o quão incrível ela era. Em vez disso, eu me afastei de seus lindos lábios e lancei-lhe o meu melhor olhar provocante.

- Vou fazer você gozar tão forte que vai até se esquecer que é a maior filha da puta do planeta. – grunhi, abaixando pelo vidro. Já de joelhos coloquei uma de suas pernas sobre meu ombro, com uma das mãos separei suas dobras encharcadas e um sorriso sacana apareceu em meus lábios. Passei minha língua demoradamente por toda sua extensão, de olhos fechados para saborear aquele néctar dos deuses que era o seu gosto. Abri os olhos e olhei para cima: ela estava com a testa e as palmas pressionadas contra o vidro, os olhos fechados com força. Ela pareceu vulnerável, e ficou linda naquele abandono. Mas não estava vulnerável. Ela era a maior cretina do planeta e eu estava de joelhos na frente dela. Isso não poderia ficar assim.

 Então, em vez de dar o que ela queria, retirei sua perna do meu ombro e me levantei, encontrei minha saia pelo chão e a coloquei de volta no lugar e a encarei. Foi mais fácil dessa vez, sem as mãos dela me tocando e me fazendo sentir coisas que não eram do assunto dela. Os segundos se passaram sem que nenhuma das duas desviasse o olhar.

 - Que merda você acha que está fazendo? – ela disse. – Ajoelhe-se e abra a boca.

- Sem chance.

Ajeitei minha blusa como pude e saí da sala, rezando para que minhas pernas trêmulas não me traíssem. De volta à minha sala, peguei minha bolsa e joguei o casaco nos ombros, tentando desesperadamente abotoá-lo com meus dedos que também tremiam. A sra. Jauregui ainda não tinha saído, e torci para que o elevador chegasse antes que eu tivesse que vê-la novamente.

 Eu não me permiti sequer pensar no que havia acontecido, não até sair de lá. Eu tinha deixado ela me foder, me proporcionar o orgasmo mais incrível da minha vida, e então a deixara na sala de conferências da empresa com a calcinha a mais de metro de distância do corpo, com o pior toco que uma mulher poderia ter. Se fosse a vida de outra pessoa, eu estaria comemorando e rindo muito. Pena que não era.

Merda.

 As portas do elevador se abriram e eu entrei, rapidamente apertando o botão e assistindo enquanto cada andar passava diante dos meus olhos. Assim que cheguei ao térreo, corri, atravessando a recepção. Ouvi o segurança dizer alguma coisa sobre trabalhar até tarde, mas apenas acenei e passei por ele com pressa. A cada passo, a dor no meio das minhas pernas me lembrava dos eventos a última hora. Quando cheguei no meu carro, destranquei-o com o controle, abri a porta e me joguei na segurança do banco de couro. Olhei para cima e enxerguei a mim mesma no espelho retrovisor.


Mas que merda foi aquela?

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